“Eu também poderia ter matado alguém”: ex-menor infrator relata como os “trabalhos ilegais” ultrapassam o limite da violência

A porta de entrada para o crime pode começar com apenas uma hashtag nas redes sociais. E, depois disso, o caminho pode levar rapidamente a crimes violentos próximos do assassinato.

“Eu também poderia ter matado alguém”: ex-menor infrator relata como os “trabalhos ilegais” ultrapassam o limite da violência

No recente caso de roubo seguido de morte ocorrido na província de Tochigi, seis pessoas, incluindo um estudante de ensino médio de 16 anos, foram presas. Um ex-menor infrator, atualmente na prisão após participar de diversos assaltos em diferentes regiões do Japão, revelou detalhes sobre o funcionamento dos chamados “yami baito” — trabalhos ilegais recrutados pela internet —, as formas de aliciamento e os limites das medidas de prevenção.

Convites para “ganhar dinheiro” aparecem nas redes sociais

Segundo o homem, hoje na faixa dos 20 anos, o recrutamento criminoso ocorre de forma extremamente acessível.

Ele explica que bastava publicar posts em redes sociais utilizando hashtags específicas para começar a receber mensagens de recrutadores.

“As palavras-chave são hashtags como ‘dinheiro imediato’, ‘quitar dívidas’, ‘pagamento diário’, ‘alto salário’, ‘estou com problemas financeiros’ ou até ‘trabalho em resort’. Quanto mais hashtags populares você coloca, mais convites aparecem, desde trabalhos aparentemente legais até atividades criminosas. Quando a conversa vai para Signal ou Telegram, é 100% crime.”

O ex-detento afirma que muitos jovens vivem em ambientes vulneráveis e acabam sendo facilmente atraídos pela promessa de dinheiro rápido.

“Eu fazia trabalhos temporários no dia a dia para evitar chamar atenção da polícia. E, de vez em quando, aceitava serviços com retorno alto.”

“Eu também poderia ter matado alguém”: ex-menor infrator relata como os “trabalhos ilegais” ultrapassam o limite da violência

“Eu também poderia ter matado”

No caso de Tochigi, o roubo acabou evoluindo para homicídio.

No Japão, o crime de roubo seguido de morte pode resultar em prisão perpétua ou pena de morte. Mesmo em casos envolvendo menores de idade, a punição pode chegar à prisão perpétua.

Embora no caso envolvendo "A" ninguém tenha morrido, ele afirma que a diferença entre roubo e assassinato muitas vezes depende apenas de segundos.

“Eu também poderia ter matado alguém. Ou então algum cúmplice poderia ter feito isso. Às vezes penso: e se a vítima tivesse batido a cabeça depois de um chute? Dá arrepios imaginar.”

Apesar disso, ele afirma que tinha consciência das consequências legais.

“Eu sabia que matar alguém poderia resultar em prisão perpétua ou pena de morte. Por isso tentei me controlar ao máximo.”

O perigo aumenta quando desconhecidos agem juntos

Segundo ele, o assalto foi cometido ao lado de um cúmplice de longa data, alguém em quem confiava.

“Antes do crime nós combinamos que tentaríamos evitar ferimentos graves.”

Ele acredita que crimes acabam ultrapassando limites quando grupos perdem completamente o controle emocional.

“Quando várias pessoas entram em estado de excitação, a violência pode sair do controle. Mas, se ainda existe racionalidade, a chance de matar alguém diminui.”

O ex-detento afirmou que não teria coragem de cometer crimes ao lado de desconhecidos.

“Se eu estivesse com pessoas que não conheço, eu mesmo teria medo.”

Segundo ele, quando criminosos sem ligação entre si são reunidos pela internet, o risco de violência extrema aumenta significativamente.

“Mesmo com reportagens, algumas pessoas ainda vão aceitar”

Para evitar novas vítimas e impedir que jovens sejam recrutados, A acredita que apenas alertas da mídia não são suficientes.

“Mesmo que a imprensa fale disso todos os dias, algumas pessoas ainda vão aceitar esse tipo de proposta.”

Ele defende a criação de organizações independentes para ajudar jovens antes que sejam forçados a cometer crimes.

“Quando alguém envia seus dados pessoais para recrutadores, fica com medo de procurar a polícia. Seria importante existir uma ONG ou instituição civil especializada para oferecer apoio.”

O ex-presidiário também afirma que o combate ao crime online ainda enfrenta enormes dificuldades.

“Não é só trabalho ilegal. Drogas e MDMA também são vendidos livremente nas redes sociais. O ideal seria acabar primeiro com esse tipo de conteúdo, mas claramente isso ainda não está funcionando.”

Enquanto isso, publicações com frases como “pagamento imediato”, “alto retorno” e “trabalho seguro” continuam circulando diariamente nas redes sociais japonesas.